Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban


Algo sombrio se move sob a face das águas. Em Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban (Harry Potter and the Prisoner of Azkaban, ING, 2004), o surpreendentemente bom – e controverso – terceiro filme da franquia baseada nos livros de J.K. Rowling, Harry, Rony e Hermione retornam à Hogwarts em uma época sombria marcada pela fuga do prisioneiro Sirius Black (interpretado por Gary Oldman) do terrível e assustador presídio de Azkaban.

Ninguém jamais escapou da prisão antes, guardada por espectros tenebrosos chamados Dementadores, que sugam as alegrias e esperanças das pessoas. Portanto, o governo bruxo arma uma força tarefa para encontrar Sirius Black, e capturá-lo. Em uma assustadora sequência dentro do trem que leva os alunos para Hogwarts, um Dementador entra no vagão onde os protagonistas estão e tenta dar um “beijo” em Harry, algo que não irá somente mata-lo: irá sugar sua alma.

Nessa cena o diretor mexicano, Alfonso Cuarón, estabeleceu o tom que sucederia as posteriores adaptações da franquia Harry Potter: tons escuros, sombra e medo. Se os dois primeiros filmes da série, dirigidos pelo cineasta Chris Columbus focavam na questão do maravilhamento; a descoberta de um rico e mágico universo atrás da porta, o filme de Cuarón inicia o aprofundamento numa série de elementos mais adultos, como amizade, maternidade, paternidade e perda da infância.

Harry (Daniel Radcliffe) logo se afeiçoa ao professor de Defesa Contra as Artes das Trevas, Remus Lupin (um surpreendente David Twelis) com quem ele chega próximo de uma figura paterna, antes concentrada no professor e diretor da escola, Albus Dumbledore. Apesar de Radcliffe ser um ator limitado desde a infância, sua dinâmica com Twelis solta faíscas. O ator veterano, despido de seus trajes costumeiros de vilão, esbanja simpatia e personalidade surpreendentes.

Michael Gambon, substituindo o recém-falecido Richard Harris no papel do diretor de Hogwarts, traz às telas características diferentes ao personagem, agora recheado de ironia, humor e cinismo, mais próximo livro do que Harris, uma figura paternalista e carinhosa e acolhedora. Maggie Smith e Alan Rickman, como os professores McGonagall e Snape respectivamente, deitam e rolam em seus papéis como fizeram nos outros dois filmes.

Para completar a lista de grandes e veteranos atores ingleses, está a fantástica Emma Thompson no papel da professora de adivinhações, Sibila Trelawney. Seu confronto com Hermione Granger (Emma Watson) na sala de aula é histericamente engraçada e contrapõe o aspecto macabro do personagem de Alan Rickman, Snape, e de Gary Oldman, Sirius Black.

É nesse momento que o talento de Cuarón para dirigir atores se mostra mais evidente. Em uma cena espetacular, Snape, Lupin e Sirius Black se confrontam em um duelo hilário de proporções épicas, também revelador de um segredo que marcará a vida do jovem bruxinho.

O cineasta mexicano, trabalhando em seu primeiro blockbuster abandonou seus traços estilísticos, mas não perdeu sua identidade. As costumeiras cenas filmadas sem cortes foram picotadas em edições rápidas, e o fotógrafo Emmanuel Lubezki não foi utilizado por falta de disponibilidade. 


Mas você se sente dentro de Hogwarts, conforme o diretor alterna momentos assustadores com cômicos demonstrando imensa habilidade, com a ajuda da trilha sonora de John Williams, que assume tons mais românticos.

Com duas horas e dez minutos de duração, Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban é consideravelmente menor do que seus antecessores. No entanto, ao invés de seguir à risca o livro de Rowling, Cuarón apresentou recheou o universo de Harry Potter e seus amigos com mais contexto. É possivelmente o mais artístico de toda a franquia de filmes Harry Potter, o que, consequentemente o torna diferente dos demais. Ele também toma mais liberdades artísticas que os demais. Isso gerou descontentamento de muitos fãs, mas o filme é econômico, engraçado e repleto de carga poética. Se você se permitir olhar, é claro.

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