Nárnia, Fantasia e o coração de C.S. Lewis


O nome dele era Eustácio e ele merecia. É difícil conhecer alguém que não tenha ido para Nárnia pelo menos uma vez na vida. Isso acontece por que Nárnia não é um lugar, mas um estado de espírito que pode ser visitado sob muitas formas e nomes diferentes. Alguns preferem chamá-la de Terra Média, Terra do Nunca, País das Maravilhas, Hogwarts etc, mas a verdade é que esse lugar é um só.

O reino da fantasia é relegado ao subgênero literário, televisivo ou cinematográfico do fantástico, adorado e evitado por muitos. Existem vários tipos de fantasia. Algumas são mais claras e reconhecíveis, como as séries Harry Potter, O Senhor dos Anéis e Game of Thrones, que explodiram na cultura pop da última década e meia. São narrativas medievais, heroicas ou até contemporâneas que falam de mundos secundários e paralelos, onde a ciência foi subjugada pelos conhecimentos da magia, mas que só podem ser acessadas por meio de portas especiais.

Outras já são mais difíceis de serem reconhecidas, mas ainda pertencem ao fantástico. Usualmente elas tratam do mesmo tema: a passagem do mundo real  para o sobrenatural ou fantasioso. Essa passagem, ou portal, é mais facilmente aberta na época da infância, onde as propriedades do mundo estão mais dissolvidas na consciência em formação do indivíduo, onde o mundo real é permeado pelo fantástico, que consegue invadir nossa realidade por meio de pequenas brechas entre os dois universos.

Às vezes, é mais difícil de perceber essa passagem, mas ela não deixa de estar lá. É o que chamamos de Realismo Mágico. Não há necessariamente nenhuma magia nessas histórias, mas elas ainda são capazes de nos transportar para outros mundos, seja para lugares bons e repletos de aventuras como em As Aventuras de Pi do diretor Ang Lee, ou Indomável Sonhadora de Behn Zeitlin, ou sombrios, como em Drive de Nicolas Winding Refn, um filme que, por meio de recursos estilísticos é capaz de nos transportar para lugares mais noturnos.

Essa capacidade é puramente subjetiva e depende de uma série de fatores. Ou da habilidade do cineasta ou do escritor, como Hayao Myiasaki, Peter Jackson, Stephen King e Neil Gaiman, como da disponibilidade e abertura do próprio leitor ou espectador. Como disse Keith Donohue, autor do maravilhoso livro A Criança Roubada, um conto de fadas contemporâneo, o leitor traz sua própria cota de expectativas e de experiências, completando a obra em suas leituras.

Em 1949, C.S. Lewis começou a escrever a série de livros As Crônicas de Nárnia, que foram publicados entre 1950 e 1956 primeiramente na Inglaterra. São sete livros, começando por O Leão, A Feiticeira e o Guarda-Roupa, que foram infinitamente adaptados em séries de televisão, rádio, teatro e cinema, do qual trataremos nesta resenha.

Em 2005 estreou  mundialmente o primeiro filme da trilogia As Crônicas de Nárnia, O Leão, A Feiticeira e o Guarda Roupa, dirigido por Andrew Adamson. O segundo, Príncipe Caspian foi capitaneado pelo mesmo diretor e estreou em 2008, seguido de O Peregrino da Alvorada em 2010, o melhor dos três foi dirigido por Michael Apted.

Nenhuma das três adaptações é propriamente boa, em parte por culpa de um péssimo elenco infanto-juvenil, o que é uma pena e atípico no cinema britânico, conhecido por ter bons atores. O primeiro filme possui duas horas e vinte de duração e seu tédio é somente salvo por um elenco de apoio composto por Tilda Swinton, James McAvoy e Liam Neeson. O segundo, possui mais valor de produção mas continua perdendo em aspecto dramático. O terceiro, ironicamente, com menor orçamento  e efeitos especiais  mais canhestros é o que mais possui força dramática e profundidade psicológica.

A história de C.S. Lewis começa com quatro irmãos que entram em um guarda-roupa e são levados ao reino fantástico de Nárnia, dominado por uma perversa rainha do gelo. Vez ou outra elas saem desse reino e devem ser levados de volta quando a necessidade chama e eles são comandados ao retorno.

No entanto, conforme se aproximam da idade adulta, os irmãos mais velhos são privados do direito de retornar ao mundo da fantasia. Cabe aos mais novos, Lucy e Edmund e ao primo Esutácio, resolverem a situação no terceiro filme da trilogia. Esutácio, o mais cínico e mais cético dos três jovens, é  o que encontra mais problemas em admitir a existência do mundo mágico, mas cabe a ele - querendo ou não - o papel de personagem que terá o maior crescimento espiritual de todos.

Por algum motivo, o próprio Lewis não parece ter escapado à visão um tanto pessimista - e conformista - de que Nárnia se torna inatingível depois que se chega à idade adulta, como acontece especialmente com a irmã mais velha, Susan. Discordo, embora seja importante salientar que o argumento do autor, aqui,  fala da pressão social sobre os personagens, que os força a se comportar diante de padrões pré-estabelecidos.

Mas no fundo não é necessário muito para se visitar Nárnia, basta querer. Alguns autores nos levam até lá com mais facilidade, como J.K. Rowling, J.R.R. Tolkien ou George R.R. Martin, se você deixar. Mas, como disse Neil Gaiman, cabe a nós mesmos abrirmos as portas para o mundo da fantasia. Portanto, é muito fácil dizer que fomos privados de entrar em algum lugar,  quando somos nós que estamos segurando a chave.

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