House of Cards é a nova série produzida pelo Netflix com supervisão de David Fincher, que conta os bastidores de uma conspiração política nos Estados Unidos
Realizar a migração do cinema para a televisão é um trabalho perigoso e normalmente destinado a atores e diretores que perderam espaço no grande circuito cinematográfico. Nomes como Dennis Quaid, Gary Sinise e Lawrence Fishburne veem à mente. Uma vez que suas chances em Hollywood se esgotaram, eles se voltaram para a televisão, onde fazem considerável sucesso com ausas respectivas séries.
Portanto, quando o Netflix anunciou que Kevin Spacey e David Fincher iriam formar uma dupla para trazer o romance de Michael Dobbs, House of Cards (que também gerou uma série britânica produzida pela BBC) às telas, isso gerou certa preocupação. Spacey não fazia um bom filme desde o pouco conhecido Margin Call no começo de 2011. Já Fincher, duas vezes indicado ao Oscar de Melhor Direção, é um cineasta moderno que normalmente não erra na escolha de seus projetos, mas a adaptação do romance de Stieg Larsson, Os Homens Que Não Amavam as Mulheres, foi um tiro no próprio pé.
Outro agravante é o gênero televisivo per se. Ao contrário do cinema, onde há mais espaço e liberdade criativa para o desenvolvimento de narrativas e personagens, na televisão as atuações são normalmente intensificadas e o tempo para que as coisas sejam desenvolvidas é menor. Os episódios de uma série de televisão raramente duram mais de uma hora. Como são vários numa temporada, é comum acreditar que os personagens terão, sim, mais tempo para serem desenvolvidos. Não é o que acontece. E essa é a minha maneira não muito discreta para dizer que eu prefiro cinema à televisão.No entanto, ao contrário do que eu poderia esperar, um dos fatores mais importantes da série foi a extrema liberdade criativa que os realizadores tiveram por parte do Netflix, componente determinante para atrair cineastas como David Fincher e Joel Schumacher, e atores como Kevin Spacey e Robin Wright.
A combinação não poderia ter dado mais certo. Sob a supervisão de Fincher (que dirigiu os dois primeiros episódios) e de Eric Roth (roteirista de Forrest Gump e Benjamin Button), com roteiro de Beau Willimon, é com grande prazer que eu anuncio que House of Cards é diferente de qualquer outra série de televisão na atualidade.
Frank Underwood (Kevin Spacey) é um congressista norte-americano que foi apunhalado pelas costas pelo presidente dos Estados Unidos. Quando o novo presidente foi anunciado, promessas haviam sido feitas. Underwood, que havia realizado um extenso trabalho para formular uma reforma educacional, devia ter se tornado Secretário de Estado, mas não foi o que aconteceu. Esse é o estopim para um elaborado plano de Underwood de se vingar de todos (e eu digo TODOS) que o traíram. O objetivo não poderia ser menos ambicioso: se tornar presidente dos Estados Unidos. E Underwood fará o que for necessário - literalmente - para chegar lá.Ao lado de seu fiel escudeiro, Doug Stamper (Michael Kelly) e de sua esposa, Claire Underwood (Robin Wright) ele começa a arquitetar o plano que o levará ao cargo mais importante do mundo. As narrativas de House of Cards são paralelas e muitas. Underwood, descobre em Zoe Barnes (Kate Mara), uma jovem jornalista destinada a subir na carreira, uma possível ferramenta. E em Peter Russo (Corey Stoll), um também jovem, bonito, mas irresponsável congressista, o perfeito bode expiatório.
Russo, discutivelmente um dos melhores personagens do seriado, é provavelmente o indivíduo mais ético de todo House of Cards. No entanto, seu vício em álcool e drogas o levam numa rota de autodestruição que se mostra perfeita para Underwood concretizar seu plano.
Ao mesmo tempo, a esposa de Frank, Claire, trabalha em seu próprio projeto terceiro-mundista de levar água potável à regiões pobres da África. Não há amizade ou amor em House of Cards. Lealdade também é um elemento bastante questionável. O que há é interesse e determinação. Dessa forma, para entender o que está acontecendo com os personagens, e por que eles estão fazendo o que estão fazendo uns com os outros, é necessário entender qual é o objetivo que eles tem em mente. Traição faz parte do jogo.Com um orçamento de aproximadamente 60 milhões de dólares só para a primeira temporada, House of Cards traz para a televisão um padrão cinematográfico. Eu falo de cor, iluminação, fotografia, montagem e uma quantidade absurda de locações, figurinos e detalhes que ajudam a compor um ambiente muito realista dentro da Casa Branca.
O roteiro é inteligente e os diálogos afiados. O ritmo, contrário ao ímpeto imparável de David Fincher em seus filmes, é sóbrio, mas constante. Não há um ator fora de seu personagem. Todas as atuações são impecáveis em um nível que faz Homeland (vencedor do Globo de Ouro este ano) parecer coisa de amadores. Duas vezes ganhador do Oscar, Kevin Spacey está, provavelmente, em um dos melhores papéis de sua carreira. House of Cards parece um sonho, uma espécie de utopia: algo que não devia existir na televisão, mas existe.
Sem um episódio ruim no primeiro ano, House of Cards surgiu em 2013 como um nocaute. É a melhor coisa passando no momento em qualquer lugar. Uma fábula sobre corrupção, sexo, drogas e violência dentro dos mais altos escalões da Casa Branca. Seja atencioso. A trama, elaborada e complexa, não permite desatenção. E esteja avisado: ninguém é confiável.
É assim que se devora uma baleia. Um pedaço de cada vez.





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