Memórias de 11 de setembro


O Homem de Aço do diretor Zack Snyder é um filme em constante conflito consigo mesmo e com uma contagem de mortos absurda, mas é impossível ficar indiferente às suas maravilhas 

Depois que Christopher Nolan reintroduziu o Batman, um dos ícones da cultura pop contemporânea, no cinema, com grandes resultados (uma grande história, fantásticas atuações e um senso de realismo contraposto ao caricaturismo dos filmes dirigidos por Tim Burton), a DC Comics parece ter voltado seus esforços para novas adaptações de seus quadrinhos, com um viés mais sombrio e contemporâneo. Agora é comum que os filmes de grande orçamento (Homem de Ferro, Star Trek) tenham mensagens políticas mais condizentes com a realidade atual.



É o que acontece em O Homem de Aço (Man of Steel, EUA, 2013) do diretor Zack Snyder. Política e cinema costumam conversar muito bem quando são bem dirigidas, mas Snyder é um cineasta conhecido por capitanear ousados projetos, e costuma pecar por excesso. É o caso de 300 e Watchmen  (ambos baseados em quadrinhos cultuados) e Sucker Punch. Normalmente seus filmes são belos de se ver, mas costumam pecar em inteligência toda vez que abrem a boca.


E é justamente por isso que a Warner e DC Comics chamaram ninguém menos que Christopher Nolan, a maligna mente por trás da franquia Batman, cujos últimos dois filmes subverteram a noção de super-heróis no cinema que havia sido construída nos últimos anos, além de serem duas das obras cinematográficas mais vistas da última década. Nolan é um diretor que conhece tudo sobre "clima". Snyder conhece tudo sobre fogos de artifício. Nolan é um diretor que sabe se conter. Snyder... não. O resultado em O Homem de Aço, é um filme em constante conflito consigo mesmo, mas, mesmo com seus exageros, é impossível ficar indiferente às suas maravilhas.

Clark Kent (Henry Cavill de The Tudors) é um garoto residente de uma cidade chamada Smallville no Kansas, e descobre que possui poderes sobre-humanos. Uma força descomunal, capacidade de enxergar através de qualquer material (menos chumbo) e olhos capazes de queimar qualquer coisa.  Isso não torna Clark um indivíduo consideravelmente seguro, mas seu pai, Jonathan Kent (Kevin Costner) consegue criá-lo de maneira a aprender controlar seus poderes, com amor ao seu filho e à raça humana. "Seja lá qual tipo de homem você se tornar", ele diz, "mudará o mundo". De fato.

Clark, na verdade, é Kal-El, um alienígena vindo do planeta Krytpon. Filho de um cientista, Jor-El (Russell Crowe), ele é enviado para a Terra ainda bebê, quando seu planeta natal enfrenta uma eminente destruição depois de ter esgotado todos seus recursos naturais. O impiedoso General Zod (Michael Shannon) tenta um golpe militar antes que as coisas piorem, mas Jor-El já sabe que o planeta está condenado. Antes que a guerra estoure, ele envia seu filho para a Terra, e, com ele, a oportunidade de criar um novo mundo. Um mundo melhor.

Zod falha em seu golpe, e é condenado à prisão durante 300 anos em congelamento. No entanto,  com a destruição de Krypton, tanto ele quanto seus soldados insurgentes são libertados e não buscam vingança, mas sim reconstruir seu planeta perdido. Eles eventualmente são levados à Terra, e a um Clark Kent já adulto e amadurecido com o conhecimento de seus poderes, que serão necessários para salvar seu planeta quando Zod percebe que ele é perfeito para instaurar um novo Krypton.

A diferença na abordagem de Snyder para os filmes da franquia do Super Homem é completamente diferente, especialmente em comparação ao filme dirigido por Bryan Singer em 2006. Aqui, o vilão é o um Kryptoniano e não o conhecido arqui-inimigo de Clark Kent, Lex Luthor. O diretor também se livrou da cueca vermelha para fora da calça. O tom da história é mais sério, mais sombrio e mais político. A destruição humana é iminente, de forma que a humanidade enfrenta a aniquilação total, e somente Kent poderá salvá-la.

Snyder novamente peca por excesso. A sequência final de O Homem de Aço envolve uma batalha apocalíptica muito envolvente, mas completamente absurda em Metropolis, que teria matado milhares, senão milhões de pessoas inocentes. Esse tipo de catastrofismo é algo derivado das animações japonesas, que, por sua vez, é resquício do trauma sofrido na década de 40 com a destruição de Hiroshima e Nagasaki. Aqui, é resquício do atentado de 11 de setembro de 2001, e o padrão da destruição das cidades está se tornando mais frequente nos últimos anos. Só em 2013, temos Star Trek, Homem de Aço e Círculo de Fogo, todos com batalhas apocalípticas e prédios derrubados.

É difícil saber como isso vai prosseguir e quais serão as consequências das releituras do terrorismo e da violência na nossa sociedade nos próximos anos. O cinema, como qualquer forma de expressão, não está alheio às pressões exteriores. Ele exorciza seus demônios nas telas, seja em filmes deliberadamente políticos ou em grandes blockbusters como Homem de Aço. O problema, no entanto, é como esses demônios são abordados. Destruição global, meio-ambiente, terrorismo, Estado força militar e popular já foram tratados de formas melhores por cineastas mais inteligentes, como o próprio Christopher Nolan fez na trilogia Batman. 

Mas também há um dilema moral em O Homem de Aço que é muito abordado pela ficção-científica clássica. Krypton era uma civilização tecnologicamente avançada, mas que sucumbiu diante de sua própria arrogância. Deve ela ser restaurada, ou será que a Terra, um planeta também devastado pela imaturidade de sua população, é quem merece sobreviver? Qual futuro é menos noturno? Seja lá qual for a resposta, Snyder a entrega com resultados diminutivos. O filme é mais astuto e profundo nas sequências que narram a história de Clark Kent e quando seu pai, interpretado brilhantemente por Kevin Costner, aparece como a figura consciente e que guia, moral e espiritualmente, o protagonista em sua jornada.

Diminuída a marcha, O Homem de Aço poderia ter sido uma obra memorável do calibre de seu contemporâneo Cavaleiro das Trevas. No entanto, transformou-se em um filme de ação razoavelmente decente. Nós merecemos mais do que isso, obviamente. Mas, pego na junção entre raiva e angústia, O Homem de Aço é uma viagem eletrizante e humana, provavelmente melhor do que aparentava ser à princípio.

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