De um ponto de vista puramente pessoal e subjetivo, eu nunca concordei muito com Roger Ebert, crítico e escritor do Chicago Sun-Tames que faleceu nesta quinta-feira, 4 de abril de 2013, depois de uma longa batalha contra o câncer aos 70 anos de idade. Meu pai era mais fã dele do que eu. No entanto, com o passar dos anos e um pouco mais de amadurecimento, ele se tornou um dos dois críticos de cinema mais importantes da minha curta e projetada carreira como jornalista (o outro é Peter Travers da Rolling Stone Magazine).
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Ele escreveu no Chigaco Sun-Times durante 46 anos e foi o primeiro crítico do veículo, assim como o primeiro crítico a ganhar o prêmio Pulitzer, o mais prestigiado e consagrado da literatura norte-americana. Desde que eu descobri, diante do meu fascínio pela cultura cinematográfica, há uns oito anos, o IMDB (Internet Movie Database) – a enciclopédia essencial do cinema – ele esteve lá. Isso significa que, com o passar do tempo, vou acabar me acostumando a entrar no site e não encontrar seus textos lá. Mas não tão cedo, espero.
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| Roger Ebert foi diagnosticado com câncer em 2002 |
Ebert deixou um legado duradouro e importante para trás, embora seu nome seja pouco conhecido aqui no Brasil. Com um estilo de escrita leve, sucinto e sem rebuliços, ele descaracterizou o estereótipo de que a arte de se resenhar um filme é algo pedante e elitista. Ebert era muito simples em suas caracterizações: polegares para cima se o filme era bom e para baixo se o filme era ruim. Nos Estados Unidos ele se tornou uma figura de conhecimento do público comum, o que é raro. Dê-me três nomes de críticos brasileiros que vêm a sua cabeça em 20 segundos e você vai entender o que eu falo. Eu só consegui dois.
De acordo com sua página biográfica no IMDB, sua atriz favorita era Ingrid Bergman. Seu filme favorito era Os Bons Companheiros de Martin Scorcese e o filme que ele mais detestou foi Day of the Woman de 1978. De acordo com ele, o Oscar de Melhor Filme para Gladiador foi o maior erro da história da Academia. Ele escreveu 15 livros e se tornou o primeiro a vencer o Pulitzer por crítica nos Estados Unidos enquanto Stephen Hunter do Washington Post se tornou o segundo em 2003.
Ebert também era fã de ficção científica e do personagem James Bond de Ian Fleming, possuindo um arquivo enciclopédico sobre 007, o qual tive a chance de visitar brevemente quando assisti uma montagem feita por ele com os melhores momentos da história da franquia, antes da estreia de Skyfall no ano passado (filme que ele deu nota 10). Seu último artigo foi publicado pelo Sun Times no dia 2 de abril, intitulado A Leave of Presence.
Desde então ele passou por diversos e invasivos procedimentos radioativos e cirurgias que o deixaram consideravelmente desfigurado (veja acima) e o obrigaram a usar uma voz eletrônica para se comunicar. Apesar de recentemente ele ter desistido de sua batalha contra a doença (conforme ele divulgou em seu site) sua deformação e cansaço não o impediram de continuar participando de estreias e escrevendo resenhas. Em 2012 ele bateu um recorde ao publicar 306 reviews no jornal onde trabalhou desde 1967, minha favorita sendo Amor, um filme assustador de Michael Haneke no qual tanto eu, quanto Ebert, em estações muito distintas de nossas vidas, fomos forçados a confrontar nossa própria fragilidade existencial como seres humanos.
Novamente de um ponto de vista puramente pessoal e subjetivo, embora eu e Ebert tenhamos discordado várias vezes nos últimos anos, ele foi responsável por parte da minha contínua jornada como futuro crítico de cinema (e futuro cineasta, quem sabe). Foi por meio de seus textos (e de outros) que eu aprendi a escrever os meus e com suas palavras eu aprendi a encontrar as minhas. Embora ele tenha morrido sem sequer saber da minha existência, eu me sinto profundamente grato pela ajuda que ele me concedeu e maravilhado por sua coragem e perseverança nos últimos anos.
As últimas linhas do filme Gattaca (obra que Ebert classificou como “Um dos mais inteligentes e provocativos filmes de ficção científica”), são: “Dizem que um dia cada átomo de nossos corpos foi parte de uma estrela. Talvez eu não esteja indo embora, talvez eu esteja indo para casa”. Com esse pensamento em mente, e o título da antologia de contos de Rubens Teixeira Scavone de 1971, ao qual pego o título emprestado para esta postagem, faço uma última homenagem ao escritor:
Embora a tarefa de ser um crítico, literário, cinematográfico ou de outro tipo, seja uma tarefa constantemente solitária e considerada cada vez mais desimportante, 4 de abril de 2013 foi um dia de grande perda para a comunidade internacional do cinema. Roger Ebert partiu, em sua jornada para Júpiter ou qualquer outro lugar outrora inacessível, deixando para trás seu legado como um dos homens mais inteligentes, cultos e corajosos do cinema. Adeus, meu caro. E obrigado pelos peixes.






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